Sem horas e sem dores,

sejam bem vindos.

Soneto de Fragilidade












Quiçá tivera quimera a meus pés
e a tela pintada à vela de giz.
Minerva adorada dentro dessa cela
decanta a cartela de amores que eu fiz.

Meu rio, permita casar-te com o mar!
e ver mais amor na tua tinta bordada
Quiçá primavera a banhar-te de pétala
deste poeta que sonha chorar.

Visível concreta é a idéia do amor
que à dor não permite bater ou entrar
e até em martírio proteje o mais frágil.

No vil desacato do fertilizado
se diz: - Nascerá mais amor espalhado
E morre na vida e se vai no naufrágio.

Alecrim particular












"Alecrim, alecrim dourado que nasceu no campo sem ser semeado..."


- Não se pode combater a lágrima.
Deixo então jogados pela cama meus acertos e meus relógios,
e corro pros braços de quem sempre me quis bem.

- Posso vencer o dia, ao menos?
Enquanto colho aquelas rosas, jogo levemente a areia para o lado,
cato as pedras, deixo limpo... amanhã floresce mais.

- Tiro da vida o ar.

Permita-me cantar enquanto eu amo, pois nada é mais.
Quero esperar da vida apenas o canto, a rosa e a tinta,
Pois eu me escrevo e escrevo, rapaz.

E respiro.
Amo.
Respiro.
Amo.
Respiro.
Amo.
Intercaladando-me em ápices de batimentos que meu coração aguentar,
enquanto meu combate com a lágrima não cessar.


"Foi meu amor que me disse assim, que a flor do campo era um alecrim..."

Construção








De passos que eu dou,
perturbo a terra branda, a manchar minha calça
e vai ficando suja a borda,
até se desmanchar.

É a marca da estrada que constrói minha cicatriz
pois cada coração que eu laço
vou tratando de fazer feliz.

E as manchas que se fizeram, nem sabão não tira não!
porque as manchas não são externas,
elas marcaram o coração.

Se um dia eu me soltar dessa minha mansidão, e de porre eu cair,
Caio de cara no chão,
pra lembrar-me sempre do que eu fiz.

Pois se um dia eu morrer, de amor hei de ficar
porque há de acontecer de o meu amor se eternizar!

Meu nome é Zé, tenho 25 anos e quero morrer.










Dôtôra pisicóloga, veja o que tenho pra falar
Posso num saber muito bem escrever,
mas sei rimar,
espero que a sinhora possa me intender.

Nasci numa familia pobre
Sem pão nem leite pra me dá de comê
minha mãe e meu pai encontrou a morte
e eu fiquei sem nada entender

Cresci na rua e só sabia rimar
e ninguem dava valor ao que tinha pra falar.

De manhãzinha sentava no banco
ouvindo o canto dos passarinhos passando perto
O povo me via com "olhar de branco"
E Deus, eu sempre soube que eu tava certo

Num tinha rôpa boa pra vestir
Tinha o que tinha, o que achava, o que me dava
Fui na igreja pra do mal eu me despir
E o padre, pensando que eu era ladrão, me expulsava

Eu dei uma flor pra uma moça bem bonita
ela correu, cuspiu na flor e jogou fora
A dor que toma a gente vem da margarida
que com toda beleza e aroma, tá ali, no chão agora

Nesse mundo não tem "oportunidade"
só conheço essa palavra porque vi numa placa de rua, daquelas grandes
nessa terra o julgamento é pelo dinheiro e pela idade
pobre adulto e sem familia... sou pequeno nesse mundo de gigantes

Cresci na rua e só sabia rimar
e ninguem dava valor ao que tinha pra falar.


Se a senhora dôtôra chegou até aqui na carta
sentiu a minha istória, é de doer
intenda, sei que nunca vou ter uma familia e uma mesa farta
Meu nome é Zé, tenho 25 anos e quero morrer.





PS: A gente num faz idéia do que esse povo sofre, o povo honesto que muitas vezes não tem o que comer e ainda assim não rouba nem 1 laranja na feira...
Muitos olham com aquele "olhar de branco", o olhar de recriminação, de preconceito... e não sabem o quanto um simples olhar pode machucar.
Vamos ter sempre em mente que o mundo precisa de nós, somos feitos da mesma carne, frutos da mesma árvore...

Deixe-me vencer










De todos os meus males eu retiro os bens,
De todos os demônios eu retiro os reféns,
De todas as tuas rezas eu retiro os améns,
E de tu, mulher feroz, tirarei tudo o que tens...

Pois tudo o que tens eu que te dei
E não mereces um pingo do que me esforcei
Aceitarei tuas cartas e retratros de perdão,
mas perdoar-te, minha cara, certamente nunca irei.

Estou vencendo, as poucos, minhas maldições,
Caindo e levantando, movendo multidões,
E se pra isso eu preciso retirar-te da minha vida,
Em teu peito, minha cara, descarregarei as munições.

Pois em ti se encontra a força que me mantém caído ao chão
E em teu meio, não há força que destrua teu fulgor,
E se antes eu preciso me armar até os dentes,
Deixe-me vencer, meu bem... Por favor...

Não quero me render ao seu amor.

Coragem declarada











Acordo para o fato
de que o rumo foi refeito.
Me recordo do tratado de permissão a erros.
Trago o peito tão marcado de cera de vela
e um passado de tortura, uma vida tampouco bela.

Mas reclamações eu deixo para a primeira estrofe
Porque homem de verdade sofre mas não sofre.
A face um tanto séria que trago desde o passado
não reflete nada. Nada.

Nada.

Permitir minha face refletir meu coração
é dividir o peso com os olhares de pena
e é realmente uma pena! Pois nunca, nesse mundo cão,
eu hei de partilhar a glória de vencer minha tormenta!

Há de ser a vitória minha busca constante
combatendo o desconhecido renascido de poeira e vento
Todo dia há um desfecho para o ócio semelhante
às lamentações alheias, onde me encaixo bem longe.

Eu governo o tempo.

"Brasil! Mostra tua cara..."

-











C
omo a fumaça que destrói o vento puro,
como a surdina torta fazendo barulho
como a invasão da água intrusa no circuito
como o atrito do lipídio entre meus músculos

Como alguns cacos derrubados no asfalto
como a catraca emperrada do registro
como a saliva que escorre em meio ao grito
como a justiça mascarada do planalto

Como o pincel enferrujado em fina tela
como o vazio na casa do vizinho marrento
como a frieza encorporando um sentimento
como a milícia e os tratores da favela

Como a linguagem distorcida pelo tempo
como a gramática levada em gozação
como as figuras de linguagem em ascenção
como a passagem na avenida em passos lentos

Como o malandro que levou minha carteira
e viu a morte alguns segundos depois
como a mentira em meio ao amor daqueles dois
como a tristeza do final de uma carreira

Como a paixão que dura apenas uma noite
e de manhã pede o valor do seu trabalho
como o coringa no final do meu baralho
como os espinhos corrosivos no açoite

Como o tratado em desacordo com a verdade
como a maldade aproveitando seu momento
como a tesoura cortando meu documento
me condenando a uma vida sem identidade

Como o bichinho que amedronta minha filha
como o terror da solidão num quarto escuro
como um barulho inesperado no murmúrio
como a chacina nas arestas da guerrilha

Como enxergar o sangue e ver a própria morte
como a tolice de se achar bem mais maturo
como a dor forte depois de um murro no muro
mostrando o descontentamento com a sorte

Como a incerteza incomodando os doentes
como os remédios trafegando sem efeito
como o cigarro demarcando os próprios dedos
se faz o orgulho dessa vã formosa gente.

"Brasil! Mostra tua cara..."

TUA VERDADEIRA CARA.

Claro

Ele ordena,
Ela segue.
Ele dita,
Ela escreve.
Ele mistura,
Ela bebe.


Ela abre os olhos.

...
Ela fala,
Ele se cala.
Ela segue.
Ele apaga.


"As mais sinceras almas estão nas palavras."

Escravo de mim

"Fecho os olhos e por segundos vivo o desdito."
Quem sou eu? Quem tenho sido?
procuro as respostas em passados enfadonhos.

No egoísmo do meu próprio mérito, conjugando meus futuros no pretérito,
eu me faço um sonhador, ou um contador de sonhos?

Na verdade, perdeu sentido ficar me perguntando.

Talvez, se eu apagar...
eu sonhe e apenas sonhe...
Porque pra me completar preciso encontrar meu trono.

E sentar, me elevar, me ver um pouco soberano!
Soberano sobre mim, poder me escravizar.

O poder da multiplicidade faz de mim meu próprio dono.

Me servir, me ajudar, ter a mim pra conversar,
perguntar sobre o meu dia, já sabendo o que escutar
é a beleza da minha humilde sabedoria milenar.

Libertação


E o que mais se pode dizer sobre algo?
Considerando o ambiente afetado pelos gases mal-encarados
Tempo neblinado, desconcertado, esvaziado
Não tem ninguém na rua. Tudo calado.

Num espaço vigiado por seres perturbados
Cercado por muralhas e grades assustadoras
Tendo como parceiro um louco de branco e braços amarrados
Nasce o medo de ser o que sou. Atado.

Por entre milhares de neurônios afetados
Crio um sonho divino de libertação
Imagino milhares de seres loucos como todos
Trabalhando e maquinando nossa poderosa rebelião

Não! Tenho que sair daqui!
Esse lugar destrói meu quieto espírito
Demasiado trêmulo e afastado de tudo
Fecho os olhos e por segundos vivo o desdito.

........................................: OnDe mE aChA! :........................................

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