Sem horas e sem dores,

sejam bem vindos.

Como é que se vive?


Eu nasci e disseram que eu tinha que me vestir
não chorar e não adoecer
Cresci e disseram que eu tinha que estudar
ser educado, inteligente, hétero, magro, rico.
Disseram que eu tinha que amar, casar, trabalhar
Viver como descobriram que é a forma que se vive

E se eu não seguisse a jornada premeditada?
Se me ensinassem o básico para que tivesse consciência
E conhecimento para encarar o mundo
Como de fato fosse pra ser encarado?

Então saísse nu pelos bosques
E plantações de frutas, verduras e trigo
Aprendesse a plantar comida, vivesse embaixo de umas árvores
folhas confortáveis de dormir, perto de um rio
tão limpo que pudesse me banhar
e uma fonte onde pudesse beber da pedra

Acho que a natureza tem tudo que preciso pra viver
E o paraíso parece tanto o Jardim do Éden pra mim.
E ainda assim as pessoas se matam por uma vida
que nem sabem ao certo se é a forma certa de viver.

Idéia nua

Quando a porra for só um líquido
E o caralho só um membro
E o nudismo natureza
E o abraço a encarnação fisica da beleza

Quando a orgia for de palavras
E os cantos do corpo em conjunto ressoarem
E a vida for representação de puro amor
E a paz for consequência de tudo

Quando o mundo pensar igual
Todos reconhecerão o verdadeiro valor da poesia
Como batida de profecia,
Com vodka, gelo, limão e saliva.

Terços de um inteiro









Um terço é teu...
Peguei meus dois violinos, fui viajar pra longe
vivi de perna bamba, sem chão, só lama do joelho acima...
Acima do céu estavam os olhos a me culpar...

Dois terços são meus...
Peguei minhas novas rezas, fiz um lacinho bonito
fui pro barraco lindo, pintado de tinta acrílica,
e ajoelhei pra rezar...
e aqueles olhos a me olhar...
Acima do céu estavam os olhos a me cuidar...

A parte inteira é de quem?
Quando esse mundo vem, e fica bem pequeno, pra eu poder segurar...
ele não quer levar... ele quer ser levado...
É como me dizer que quem reje minha vida sou eu.

Acima do céu os olhos fecham de vez em quando
e a vida passa mais desastrada, com risco de padecer

e pra descer, daqui, senhor... Me traz aquela escada
Pois aqui não sou nada, do alto nada irei fazer.

Soneto de Fragilidade












Quiçá tivera quimera a meus pés
e a tela pintada à vela de giz.
Minerva adorada dentro dessa cela
decanta a cartela de amores que eu fiz.

Meu rio, permita casar-te com o mar!
e ver mais amor na tua tinta bordada
Quiçá primavera a banhar-te de pétala
deste poeta que sonha chorar.

Visível concreta é a idéia do amor
que à dor não permite bater ou entrar
e até em martírio proteje o mais frágil.

No vil desacato do fertilizado
se diz: - Nascerá mais amor espalhado
E morre na vida e se vai no naufrágio.

Alecrim particular












"Alecrim, alecrim dourado que nasceu no campo sem ser semeado..."


- Não se pode combater a lágrima.
Deixo então jogados pela cama meus acertos e meus relógios,
e corro pros braços de quem sempre me quis bem.

- Posso vencer o dia, ao menos?
Enquanto colho aquelas rosas, jogo levemente a areia para o lado,
cato as pedras, deixo limpo... amanhã floresce mais.

- Tiro da vida o ar.

Permita-me cantar enquanto eu amo, pois nada é mais.
Quero esperar da vida apenas o canto, a rosa e a tinta,
Pois eu me escrevo e escrevo, rapaz.

E respiro.
Amo.
Respiro.
Amo.
Respiro.
Amo.
Intercaladando-me em ápices de batimentos que meu coração aguentar,
enquanto meu combate com a lágrima não cessar.


"Foi meu amor que me disse assim, que a flor do campo era um alecrim..."

Construção








De passos que eu dou,
perturbo a terra branda, a manchar minha calça
e vai ficando suja a borda,
até se desmanchar.

É a marca da estrada que constrói minha cicatriz
pois cada coração que eu laço
vou tratando de fazer feliz.

E as manchas que se fizeram, nem sabão não tira não!
porque as manchas não são externas,
elas marcaram o coração.

Se um dia eu me soltar dessa minha mansidão, e de porre eu cair,
Caio de cara no chão,
pra lembrar-me sempre do que eu fiz.

Pois se um dia eu morrer, de amor hei de ficar
porque há de acontecer de o meu amor se eternizar!

Meu nome é Zé, tenho 25 anos e quero morrer.










Dôtôra pisicóloga, veja o que tenho pra falar
Posso num saber muito bem escrever,
mas sei rimar,
espero que a sinhora possa me intender.

Nasci numa familia pobre
Sem pão nem leite pra me dá de comê
minha mãe e meu pai encontrou a morte
e eu fiquei sem nada entender

Cresci na rua e só sabia rimar
e ninguem dava valor ao que tinha pra falar.

De manhãzinha sentava no banco
ouvindo o canto dos passarinhos passando perto
O povo me via com "olhar de branco"
E Deus, eu sempre soube que eu tava certo

Num tinha rôpa boa pra vestir
Tinha o que tinha, o que achava, o que me dava
Fui na igreja pra do mal eu me despir
E o padre, pensando que eu era ladrão, me expulsava

Eu dei uma flor pra uma moça bem bonita
ela correu, cuspiu na flor e jogou fora
A dor que toma a gente vem da margarida
que com toda beleza e aroma, tá ali, no chão agora

Nesse mundo não tem "oportunidade"
só conheço essa palavra porque vi numa placa de rua, daquelas grandes
nessa terra o julgamento é pelo dinheiro e pela idade
pobre adulto e sem familia... sou pequeno nesse mundo de gigantes

Cresci na rua e só sabia rimar
e ninguem dava valor ao que tinha pra falar.


Se a senhora dôtôra chegou até aqui na carta
sentiu a minha istória, é de doer
intenda, sei que nunca vou ter uma familia e uma mesa farta
Meu nome é Zé, tenho 25 anos e quero morrer.





PS: A gente num faz idéia do que esse povo sofre, o povo honesto que muitas vezes não tem o que comer e ainda assim não rouba nem 1 laranja na feira...
Muitos olham com aquele "olhar de branco", o olhar de recriminação, de preconceito... e não sabem o quanto um simples olhar pode machucar.
Vamos ter sempre em mente que o mundo precisa de nós, somos feitos da mesma carne, frutos da mesma árvore...

Deixe-me vencer










De todos os meus males eu retiro os bens,
De todos os demônios eu retiro os reféns,
De todas as tuas rezas eu retiro os améns,
E de tu, mulher feroz, tirarei tudo o que tens...

Pois tudo o que tens eu que te dei
E não mereces um pingo do que me esforcei
Aceitarei tuas cartas e retratros de perdão,
mas perdoar-te, minha cara, certamente nunca irei.

Estou vencendo, as poucos, minhas maldições,
Caindo e levantando, movendo multidões,
E se pra isso eu preciso retirar-te da minha vida,
Em teu peito, minha cara, descarregarei as munições.

Pois em ti se encontra a força que me mantém caído ao chão
E em teu meio, não há força que destrua teu fulgor,
E se antes eu preciso me armar até os dentes,
Deixe-me vencer, meu bem... Por favor...

Não quero me render ao seu amor.

Coragem declarada











Acordo para o fato
de que o rumo foi refeito.
Me recordo do tratado de permissão a erros.
Trago o peito tão marcado de cera de vela
e um passado de tortura, uma vida tampouco bela.

Mas reclamações eu deixo para a primeira estrofe
Porque homem de verdade sofre mas não sofre.
A face um tanto séria que trago desde o passado
não reflete nada. Nada.

Nada.

Permitir minha face refletir meu coração
é dividir o peso com os olhares de pena
e é realmente uma pena! Pois nunca, nesse mundo cão,
eu hei de partilhar a glória de vencer minha tormenta!

Há de ser a vitória minha busca constante
combatendo o desconhecido renascido de poeira e vento
Todo dia há um desfecho para o ócio semelhante
às lamentações alheias, onde me encaixo bem longe.

Eu governo o tempo.

"Brasil! Mostra tua cara..."

-











C
omo a fumaça que destrói o vento puro,
como a surdina torta fazendo barulho
como a invasão da água intrusa no circuito
como o atrito do lipídio entre meus músculos

Como alguns cacos derrubados no asfalto
como a catraca emperrada do registro
como a saliva que escorre em meio ao grito
como a justiça mascarada do planalto

Como o pincel enferrujado em fina tela
como o vazio na casa do vizinho marrento
como a frieza encorporando um sentimento
como a milícia e os tratores da favela

Como a linguagem distorcida pelo tempo
como a gramática levada em gozação
como as figuras de linguagem em ascenção
como a passagem na avenida em passos lentos

Como o malandro que levou minha carteira
e viu a morte alguns segundos depois
como a mentira em meio ao amor daqueles dois
como a tristeza do final de uma carreira

Como a paixão que dura apenas uma noite
e de manhã pede o valor do seu trabalho
como o coringa no final do meu baralho
como os espinhos corrosivos no açoite

Como o tratado em desacordo com a verdade
como a maldade aproveitando seu momento
como a tesoura cortando meu documento
me condenando a uma vida sem identidade

Como o bichinho que amedronta minha filha
como o terror da solidão num quarto escuro
como um barulho inesperado no murmúrio
como a chacina nas arestas da guerrilha

Como enxergar o sangue e ver a própria morte
como a tolice de se achar bem mais maturo
como a dor forte depois de um murro no muro
mostrando o descontentamento com a sorte

Como a incerteza incomodando os doentes
como os remédios trafegando sem efeito
como o cigarro demarcando os próprios dedos
se faz o orgulho dessa vã formosa gente.

"Brasil! Mostra tua cara..."

TUA VERDADEIRA CARA.

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